18 de novembro de 2010

Cazuza e Renato Russo

Pessoas insistem em querer comparar a carreira de Cazuza e Renato Russo pelo fato deles terem sido os dois grandes letristas da geração 1980. Não há comparação. Até porque as influências de Cazuza eram bem abertas e mais puxadas para a MPB. Gostava de Janis Joplin, mas gostava das cantoras do rádio e da MPB dos 1970. Renato Russo também era aberto a várias influências, mas gostava mesmo era de rock e sua grande influência foi o punk rock. É só comparar “Brasil” com “Que País é Este?”.

A carreira solo de Cazuza só foi chamar a atenção do grande público em 1988, ano em que lançou ‘Ideologia’, já imerso em uma onda de boatos sobre sua mudança física – falava-se que era causada pela aids. Na música título do disco Cazuza diz “o meu prazer agora é risco de vida”, e em “Boas Novas” diz “eu vi a cara da morte/e ela estava viva”. Isso só fez com que os boatos ganhassem mais força (suas viagens para os EUA eram sempre registradas pela mídia).

Cazuza se destacou por suas letras de amor: amor bandido, amor sofrido, amor exagerado, amor com ódio, amor escandaloso, amor solitário. Sim, ele escrevia sobre outros temas (“Mal Nenhum”, “Só se For a Dois”, “Só as Mães São Felizes”, “Vai a Luta”), mas seu forte era o amor.

Lançado exatamente em agosto de 1988, ‘Ideologia’ era o sexto disco de Cazuza (contando os três com o Barão Vermelho). Nesse mesmo ano a Legião Urbana trabalhava o seu 3º lançamento ‘Que País é Este?’, disco que fechou um ciclo, pois nele se registrou definitivamente todo o repertório da Legião que existia até então (faltando, na verdade, “1977” e “Fábrica 1”). Disco pesado que só veio afirmar de uma vez por todas o talento que Renato Russo tinha para escrever músicas de protesto e também sobre as angústias juvenis. Em um momento de ressaca pós-Plano Cruzado (furado!), a música “Que País é Este?” caiu como uma luva.

diversas músicas de amor gravadas pela Legião nesses três primeiros discos: “Por Enquanto”, “Será”, “Quase Sem Querer”, “Eduardo e Mônica”, “Andrea Dória” são algumas. Porém a marca do letrista Renato Russo ficou sendo suas músicas de protesto que foram bem vindas nesse período de transição política dos anos 1980. Era uma época em que os artistas ainda eram cobrados por uma posição política, por isso ‘Ursinhos Blau Blau’ não eram bem vindos. Dentro desse contexto Legião Urbana se sobressaia.

Cazuza sempre foi desbocado, fazia parte de sua personalidade, e chegou um momento em sua vida que escancarou de vez. Chegou até a cuspir na bandeira do Brasil em sua temporada de lançamento do ‘Ideologia’ no Canecão. Mas foi só em 13 de fevereiro de 1989 que ele assumiu ter a aids, em uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo, concedida ao jornalista Zeca Camargo, em Nova York, um dia antes da publicação.

Se foi em 1988 que Cazuza resolveu ser mais crítico, foi também quando Renato Russo resolveu ser menos crítico. Provavelmente a gota d’água tenha sido o famoso show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, quando Renato brigou com tudo e com todos (e eu estou com a banda). Mas antes disso alguns shows da Legião já vinham causando certo tumulto, pois os discursos de Renato fortaleciam as mensagens passadas nas músicas de protesto.

Terminada a turnê do ‘Que País...’ a banda foi descansar. O show de Brasília o entristeceu pacas. Um monte de coisas levou Renato a repensar a carreira e uma das decisões foi a de que seria mais positivo, falaria mais de amor. Foi em 1989 que Renato descobriu estar contaminado pelo HIV. Mesmo antes disso ele já estava cansado de tantos shows, e outra resolução foi a diminuição de viagens e apresentações. Aí veio, em outubro desse mesmo ano, ‘As Quatro Estações’ não só com “Pais e Filhos”, “Quando o Sol...”, “Sete Cidades”, “Monte Castelo” e “Se Fiquei Esperando...” (essas duas últimas com citações bíblicas), mas também com “Meninos e Meninas”, onde Renato assumiu de vez seu bissexualismo. E mesmo com toda essa mudança de comportamento esse disco só veio solapar a já magnânima carreira da banda.

A partir daí Renato direcionou seu texto para o amor, claro que sem abandonar temas mais fortes, como quem diz “já escrevi tudo o que podia sobre esse assunto, agora vou escrever sobre outras coisas”.

Dois meses antes de ‘As Quatro Estações’, em agosto de 1989, Cazuza lançou seu último disco ainda em vida, o ‘Burguesia’, que abria com ele gritando “a burguesia fede”, e que ainda tem “Cobaias de Deus”. Depois de sua morte saiu o ‘Por Aí’, que ainda traz "Portuga" e “O Brasil Vai Ensinar o Mundo”.

As críticas políticas e sociais escritas por Cazuza e por Renato Russo ainda estão bem longe do prazo de validade. As músicas de amor escritas por Renato Russo e por Cazuza ainda encantam, e assim será sempre. No final de suas carreiras os papéis foram invertidos e quem ganhou com isso fomos nós.



5 comentários:

Aventuras de LegionFu disse...

Parabéns pelo brilhante texto, como costumam ser os seus. Abraço e Força sempre!

Paulo Marchetti disse...

obrigado!
abç

Moa Lemme disse...

Roger, do Ultraje a Rigor tambem deve ser lembrado neste contexto, kkkk

Anônimo disse...

Creio que o "4 estações" saiu antes de ele saber que tinha AIDS... Ele contraiu em Dezembro de 89 em NY e só soube que tinha no ano seguinte.

Anônimo disse...

Cazuza é o cara